Portugal no segundo pelotão de países mais afectados pelo Brexit

Vem aí um “furacão financeiro” chamado Brexit e está previsto que a forte devastação seja sentida principalmente no Reino Unido, embora os rastos de destruição se espalhem um pouco por toda a União Europeia (UE). Holanda, Irlanda, Bélgica e Chipre lideram o primeiro pelotão de países que se prevê que sejam os mais afectados, seguindo-se logo um segundo pelotão, do qual Portugal faz parte.

A forte exposição da economia portuguesa ao Reino Unido terá impacto nas exportações – em 2016, Portugal exportou mais de 8,1 mil milhões de euros em bens e serviços – , efeitos negativos no crescimento económico do País e nos custos do financiamento da dívida da república. Em causa está o facto do Reino Unido ser o primeiro mercado de destino das exportaçõ es nacionais de serviços, o quarto das exportaçõ es de bens, o terceiro em remessas de emigrantes e o quarto país que mais investimento directo faz em Portugal.

A curto prazo e, pela desaceleração esperada da economia britânica, prevê- -se uma quebra das exportações portuguesas entre 1,1% e 4,5%, uma redução dos fluxos de investimento directo estrangeiro dirigidos a Portugal, entre os 0,5% e 1,9%, e ainda um corte nas remessas de emigrantes, que pode oscilar de 0,8% e a 3,2%. A revelação é feita por um estudo promovido pela CIP – Confederação Empresarial Portuguesa, com o apoio da Ernst & Young e a Augusto Mateus Associados (a primeira grande avaliação do impacto económico do Brexit em Portugal), que antevê que a médio e longo prazo as exportações portuguesas venham a sofrer uma contracção global máxima de 26%, ou seja, um quarto das exportações nacionais, se o Brexit se concretizar sem acordo.

«Há uma quase impossibilidade de o Brexit ser uma coisa “clean e soft”», já admitiu o economista Augusto Mateus, que alerta que as negociações do futuro relacionamento do Reino Unido com a União Europeia poderão arrastar-se por mais quatro a cinco anos. O seu impacto «é algo que vai durar grande parte da próxima década», sublinha mesmo o antigo ministro da Economia. Na prática, o Brexit vai implicar uma reconfiguraçã o do mercado interno europeu, com consequências e desafios para as economias dos 27 países membros, uma vez que o Reino Unido deixa de ter qualquer acesso preferencial ao Mercado Único e às liberdades de circulação de bens, pessoas e capitais, ganhando assim total soberania dentro das suas fronteiras.

QUAIS OS PRODUTOS PORTUGUESES EM RISCO?

Os produtos com maior grau de risco associado ao Brexit são os informáticos, electrónicos e ópticos, equipamento eléctrico, veículos automóveis, reboques e semi-reboques. E logo a seguir surgem os produtos alimentares, bebidas, tabaco, têxteis, papel e cartão, entre muitos outros, segundo os autores do estudo encomendado pela CIP.

Já por regiões, as empresas industriais situadas no Alto Minho, Cávado, Ave e Tâmega e Sousa serão das mais castigadas pelo furação Brexit, seguindo-se as regiões de Trás-os-Montes, área metropolitana do Porto, Beiras e Serra da Estrela.

Em entrevista à Risco, o chairman da Fapajal, a histórica fábrica de papel “tissue”, Xavier Rodriguez-Martín, diz que o Brexit é «um grande erro e não é fácil corrigi-lo», mas assume que tem de se encarar a nova realidade. «Na Fapajal estamos preparados para construir flexibilidade, ou seja, redireccionar para outros mercados o que neste momento estamos a exportar para o Reino Unido.» A Fapajal tem um volume de vendas anual que ronda os 35 milhões de euros e cerca de um terço tem como destino o Reino Unido. «Temos no nosso portefólio clientes que podem acomodar facilmente o volume de vendas que fazemos para o Reino Unido», garante o empresário.

Ao nível das empresas de serviços, aquelas que operam na área metropolitana de Lisboa, Algarve e Madeira são as mais expostas ao risco Brexit. O sector do turismo, por exemplo, será um dos mais afectados, pois os dados mais recentes dizem que 28% das dormidas em unidades hoteleiras são feitas por ingleses. A secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, já admitiu que «existem alguns pontos de interrogação por parte dos operadores turísticos do Reino Unido com a incerteza e as consequências do Brexit. Isso pode gerar algum adiamento das reservas por parte dos britânicos, enquanto não souberem o que vai acontecer e o impacto que isto pode ter na desvalorização da libra».

Mas o Brexit poderá também agravar os custos de financiamento das economias, tal como já constatou a presidente da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública. «O Brexit irá tornar o financiamento dos soberanos mais caro», disse publicamente Cristina Casalinho.

OPORTUNIDADES PARA AS EMPRESAS PORTUGUESAS

Olhar para o Brexit como uma oportunidade é uma perspectiva em que muitos economistas e empresários acreditam. Também os economistas que elaboraram o estudo encomendado pela CIP consideram que os empresários e governantes portugueses, através da diplomacia económica, devem potenciar a “Velha Aliança”. Esta estratégia permitirá explorar oportunidades das empresas portuguesas substituírem, enquanto fornecedores do Reino Unido, produtos exportados por congéneres da UE, potenciando a integração em cadeias de valor ancoradas no Reino Unido. Paralelamente, a maior ligação ao Reino Unido garantirá também a atracção de investimento directo, daquela que é a quinta maior economia do mundo.

Em termos práticos, o estudo da CIP conclui mesmo que actividades como as alimentares e as químicas ou farmacêuticas comportam produtos em que parecem existir oportunidades efectivas de Portugal substituir outros países enquanto fornecedor do Reino Unido, desde que exploradas com sucesso para permitir uma difusão transversal das experiências. Já em relação à captação de investimento, existe uma acuidade particular no domínio dos serviços às empresas e dos serviços financeiros.

ECONOMIA VAI DESACELERAR

Os economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) já avisaram que o Brexit será mais devastador para o Reino Unido do que para a União Europeia. Em causa está a assimetria económica que existe entre estes dois blocos: o Reino Unido exporta 45% do que produz para a UE e importa daí 53% de bens e serviços, enquanto as exportações da UE-27 para o território britânico têm um peso de apenas 3% no caso de bens e de 0,5% de serviços, números que nas importações descem para 0,5% nos bens e 0,6% nos serviços. Face a esta discrepância, o organismo liderado por Christine Lagarde aponta para uma contracção de 4% da economia britânica e de 1,5% para o espaço europeu. Estas são previsões que têm subjacente a existência de um acordo para o Brexit, pois uma saída sem acordo poderá provocar uma quebra de 8% do Produto Interno Bruto britânico, devido ao aumento significativo das barreiras comerciais, que levará «à menor produção, investimento e exportações». Neste cenário de um Brexit desordenado, o FMI admite mesmo que os serviços financeiros serão particularmente atingidos pela interrupção, devido a desafios contratuais e operacionais. O próprio Banco de Inglaterra também já admitiu que o desemprego no sector financeiro pode atingir 75 mil pessoas no caso de haver uma saída sem acordo. Para Portugal, segundo as previsões do FMI, o “furacão Brexit” poderia custar, no pior dos cenários, 0,4% do PIB.

MENOS FUNDOS EUROPEUS PARA PORTUGAL

O pré-acordo do Brexit estabelece que o Reino Unido vai continuar a contribuir normalmente para o Orçamento da UE até 2020, embora não possa participar nas decisões, uma vez que já não é paí membro. O efeito da saída do Reino Unido começará e será sentido no próximo ciclo de programação estrutural (2021- -2027). São menos 10 a 14 mil milhões de euros que vão deixar de entrar nos cofres comunitários. Assim, as perspectivas para Portugal apontam para que haja uma quebra de 6% nos fundos afectos, embora os valores ainda estejam sujeitos a um resultado negocial. Além disso, a existência de menos recursos nos fundos estruturais obrigará, segundo os especialistas, a critérios mais apertados na aplicação do princípio da subsidiariedade.

CRISE POLÍTICA À VISTA EM LONDRES

Os cronómetros estão em contagem decrescente para o Brexit, oficialmente marcado para o dia 29 de Março de 2019, mas no ar paira um clima de total incerteza. Os líderes dos governos dos 27 países membros já deram luz verde ao acordo preliminar obtido entre o Reino Unido e Bruxelas, embora considerem que o Brexit é uma tragédia. A palavra final sobre o pré-acordo do Brexit caberá ao Parlamento britânico. Nesta câmara, os conservadores, liderados por Theresa May, não têm maioria e há mesmo muitos que ameaçam juntar- -se à oposição para chumbar o pré-acordo e forçar uma nova negociação. Theresa May, consciente da forte oposição que vai encontrar, já escreveu aos deputados de Westminster a apelar à aprovação do acordo dado que, no seu entender, «não haverá segunda opção». A primeira-ministra, na sua missiva, realça o interesse nacional e evoca as vantagens do Brexit: «Vamos recuperar o controlo sobre as nossas fronteiras e o nosso dinheiro, acabando com os pagamentos à União Europeia, vamos recuperar o controlo das nossas leis e vamos sair dos programas europeus que não funcionam a favor dos nossos interesses (…).» No fundo, May entende que o pré- -acordo protege os cidadãos europeus que construíram as suas vidas no Reino Unido, bem como os cidadãos britânicos que vivem noutros países da União Europeia, e considera que o dia 29 de Março de 2019 será o «começo de um novo capítulo na vida» do Reino Unido.

Apesar de lutar «com coração e alma», Theresa May está à beira de uma grave crise política, onde os cenários em cima da mesa são muitos: se o pré-acordo chumbar, Theresa May será alvo de uma moção de censura e demitir-se-á. Haverá eleições antecipadas e, possivelmente, um segundo referendo. Pior ainda do que isto será se o Brexit avançar sem acordo. Este é o cenário mais catastrófico em termos financeiros, mas o governo britânico há muito que tem preparado este plano de contingência para o Brexit desordenado. Para já a única certeza é que o mês de Dezembro no Reino Unido está a ser muito quente, em termos políticos, e a “prenda de Natal” poderá fazer disparar o nível de alerta para o furacão financeiro que se prepara para varrer o Reino Unido e a União Europeia.

in Revista Risco nº 11 (inverno 2018)

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