Entrar no futuro da mobilidade

As notícias sobre o futuro da mobilidade levam-nos a questionar para onde caminhamos e a que ritmo é que vamos assistir às mudanças que se perspectivam? Será que esta transformação irá decorrer da evolução natural do nosso modo de vida, ou irá revolucionar a forma como nos movimentamos dentro e fora dos centros urbanos?

por Renato Carreira, Partner da Deloitte

Os catalisadores da mudança
O actual desenvolvimento tecnológico da indústria automóvel e a sua capacidade de inovação e desenvolvimento de novas soluções são um factor de mudança determinante. Apesar de o crescimento desta indústria se ter acentuado na segunda metade do século XX, é no início deste século que surge a necessidade de melhorar a eficiência e reduzir os consumos dos automóveis. Sendo uma indústria muito competitiva e marcada pela globalização, desenvolveu competências para assegurar a substituição dos tradicionais motores de combustão por soluções eléctricas, sustentadas em baterias que, a curto prazo, irão garantir níveis de autonomia idênticos, ou mesmo superiores, aos dos veículos tradicionais.
Por outro lado, a indústria automóvel tem vindo a integrar na sua cadeia de valor novas soluções e a estabelecer parcerias com empresas de tecnologia, que visam incrementar os padrões de qualidade e fiabilidade das suas ofertas de conectividade e desenvolvimento da condução autónoma.
Actualmente, já são muitos os exemplos de veículos equipados com funcionalidades de condução autónoma, ainda que, na maioria dos casos, seja exigida alguma supervisão do condutor.
É expectável que, em poucos anos, seja a indústria automóvel a impor aos decisores políticos dos vários países a necessidade de regulamentação desta condução e aos gestores de infra-estruturas a obrigatoriedade de se adaptarem aos seus requisitos técnicos.
Outro factor que está a revelar-se decisivo é a forma como as novas gerações encaram a mobilidade tradicional. Hoje em dia, valorizam os princípios da economia partilhada e privilegiam a possibilidade de utilizar serviços de mobilidade, em detrimento da aquisição de veículo próprio. Os jovens, que vivem nos grandes centros urbanos, já dispõem de diferentes soluções de mobilidade, que satisfazem uma boa parte das suas necessidades, o que faz com que deixe de ser necessário possuir um veículo próprio para manter um grau de mobilidade autónoma elevado.
O custo mais reduzido destas soluções também é muito valorizado, permitindo alternativamente a aquisição de outros bens e/ou serviços. A tendência da utilização partilhada não se circunscreve aos veículos, sendo muito mais transversal e abrangendo, por exemplo, a habitação permanente e o alojamento em férias.
Com uma distribuição geográfica cada vez mais centrada nos grandes aglomerados urbanos e a existência de tecnologias de informação e redes sociais, que permitem uma crescente troca de informação e conhecimento entre as pessoas, as faixas etárias mais jovens têm de facto preferências de consumo substancialmente diferentes.
O terceiro factor que identificámos como catalisador da mudança está relacionado com as alterações climáticas e com a consciência global da necessidade de redução das emissões para a atmosfera dos gases de efeito de estufa. A circulação automóvel nos moldes actuais é vista como muito prejudicial para o ambiente e uma das principais causas do aquecimento global do planeta.
Hoje já é reconhecida, pela maioria dos Governos dos países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento, a necessidade imperiosa de alterar comportamentos e de impor restrições ao uso dos combustíveis fósseis. Na sequência do último Acordo de Paris sobre as Alterações Climáticas foram acordadas metas ambiciosas, que têm levado muitos países a agir. O parlamento alemão aprovou, em 2016, uma lei que impede, a partir de 2030, a comercialização de automóveis novos movidos a motores de combustão, a gasolina ou gasóleo, no mercado interno. Recentemente, também o Governo francês estabeleceu que a partir do ano de 2040 será proibido vender automóveis com motores de combustão interna.

As novas rotas
Embora ninguém possa garantir o que vai acontecer no futuro, parece-nos que existirá, de forma progressiva, um maior número de veículos autónomos. A tecnologia que permite a condução integralmente autónoma já não é mera ficção científica. As questões que se colocam actualmente são quando e como a condução autónoma se tornará convencional e adoptada em larga escala. O que no início do século XXI era mera realidade virtual tornou-se numa certeza que irá acontecer num futuro (muito) próximo.
Têm-se registado enormes avanços em termos da comunicação entre veículos. Os novos automóveis estão a ser construídos com a incorporação de tecnologias de comunicação entre veículos (vehicle-to-vehicle – V2V) e do veículo com a infra-estrutura (vehicle-to-infrastructure – V2I), o que permitirá que cada automóvel possa saber, com precisão, onde se encontra qualquer outro carro na estrada. A redução da sinistralidade é, desde logo, uma das consequências que se perspectiva. Com a minimização da intervenção humana na condução e a capacidade de os veículos interagirem entre si e com a infra-estrutura poderão ser evitados muitos acidentes e comportamentos de risco, como o excesso de velocidade, apontado como uma das principais causas dos acidentes automóveis.
Também as tecnologias dos motores movidos a energia eléctrica e das baterias que armazenam a energia necessária têm vindo a melhorar, permitindo desempenhos mais elevados e ganhos significativos de eficiência. A utilização de energia eléctrica, como fonte de substituição dos combustíveis fósseis, ajuda a reduzir de forma significativa as emissões de gases para a atmosfera (e, consequentemente, a poluição associada à utilização dos automóveis). Com a produção massificada dos veí-
culos eléctricos e das respectivas baterias, perspectivam-se avanços tecnológicos continuados, ganhos adicionais em termos de desempenho e de redução dos consumos de energia e ainda uma redução dos custos por via dos ganhos de produção em escala.
Por outro lado, a utilização de materiais mais leves, mas não menos resistentes, na construção dos veículos movidos a energia eléctrica, tem também permitido reduzir o seu peso e, assim, adicionar ganhos de eficiência, sem que sejam colocadas em risco as condições de segurança dos passageiros.
Outra mudança que se perspectiva com o novo paradigma da mobilidade é a posse dos veículos. Tendencialmente os utilizadores vão deixar de adquirir viatura própria e passar a preferir uma utilização partilhada. As gerações mais novas já demonstram preferência pelo pagamento em função da utilização de serviços de mobilidade, em detrimento da aquisição de carro próprio. Aproximadamente 50% dos consumidores da Geração Y prefere recorrer a aplicações móveis para serviços de transporte e já planeia as suas viagens através das mesmas. A tendência será o recurso alargado a estas alternativas, o que potenciará uma oferta cada vez mais integrada de serviços de mobilidade, isto é, que agreguem diferentes meios de transporte e sejam operados por múltiplas entidades. O acesso a tais serviços far-se-á cada vez mais através de smartphones e outros aparelhos similares, em ambientes especialmente adaptados ao utilizador, com funcionalidades user-friendly e de controlo imediato de consumos, sem implicar qualquer movimentação física de meios monetários.
A estimativa da Deloitte é que a mobilidade em veículos partilhados nos EUA terá um crescimento exponencial nos próximos anos. Em 2025, a utilização de veículos partilhados não deverá exceder os 10% do total de quilómetros percorridos em automóvel, já em 2040 deverá atingir os 80%.
Por outro lado, as nossas estimativas apontam que o custo da mobilidade em veículos autónomos partilhados será inferior a um terço do custo suportado actualmente, referente à utilização de veículo próprio sem tecnologia de condução autónoma.
Mas os ganhos da utilização partilhada de veículos terão ainda impactos positivos em termos da redução do tráfego rodoviário e do desgaste das infra-estruturas. Deste modo, também os utilizadores vão ter ganhos no tempo despendido nas deslocações e, em termos colectivos, também a manutenção das redes viárias e das infra-estruturas vão ter ganhos ao nível da redução dos custos.

A intervenção dos Estados
Mas as alterações que os Estados terão de antecipar não se limitam à adaptação do enquadramento legal que regulamenta a condução autónoma, estabelece as características técnicas que as infra-estruturas deverão respeitar, ou cria os protocolos para as comunicações V2V ou V2I.
É preciso olhar para outra dimensão do novo paradigma da mobilidade: a forma como os Estados tributam as realidades em torno da mobilidade, que tem vindo a assumir uma relevância significativa, em função dos impostos que incidem sobre a aquisição e detenção de automóveis próprios, mas também sobre a aquisição de combustíveis fósseis. Assim, será necessário considerar que os impostos e as receitas públicas, decorrentes da mobilidade, deixarão de estar associados a um modelo fixo, devendo evoluir para modelos dinâmicos ligados à utilização dos serviços de mobilidade. Os eventuais atrasos na introdução das referidas alterações poderão vir a penalizar os cofres públicos e até a criar distorções no mercado.
Outro efeito que deverá ser equacionado atempadamente pelos Estados é a longevidade dos incentivos públicos que existem, ou possam ser introduzidos para promover, entre outros objectivos, a utilização dos veículos eléctricos e/ou autónomos e/ou partilhados. Com a perspectiva de utilização crescente das diferentes formas de mobilidade, caberá a cada Estado traçar as suas metas e definir os mecanismos a utilizar para as atingirem. A alteração do paradigma da mobilidade implicará alterações profundas e com impacto no financiamento das despesas públicas de muitos Estados, em especial naqueles onde a tributação sobre a aquisição e utilização dos automóveis convencionais é mais acentuada.

Oportunidades e riscos para as empresas
A alteração de paradigma no campo da mobilidade é indiscutivelmente uma enorme oportunidade e, simultaneamente, um grande desafio para muitas empresas, já que terá impacto em muitos sectores de actividade (e não somente nos que se encontram directamente ligados aos transportes e à mobilidade). Assim como é evidente que as empresas que comercializam combustíveis terão de converter o seu actual negócio à medida que aumentar o número de veículos eléctricos em circulação, também as empresas que disponibilizam serviços móveis de telecomunicações e conteúdos multimédia terão que se adequar às novas oportunidades. O fluxo de informação tenderá a aumentar de modo significativo ao nível das redes de telecomunicações móveis, passando todos os veículos a estarem ligados a elas. Deste modo, as empresas que produzem e disponibilizam conteúdos de media passarão a contar com a disponibilidade dos passageiros que viajam em veículos autónomos. Estes veículos serão um local privilegiado para o consumo de conteúdos de media e para a realização de compras ou aquisição de serviços online.
Outro sector onde se antecipa um enorme desafio é o das seguradoras. Os automóveis representam actualmente uma fatia relevante do negócio das seguradoras, que tenderá a diminuir se a sinistralidade reduzir substancialmente. Também a oferta de produtos/serviços a disponibilizar deverá ser adequada ao contexto dos veículos autónomos e/ou partilhados, passando a ser necessário privilegiar o sistema de mobilidade no seu todo, em vez da actual primazia ao veículo ou ao condutor.
A segurança no novo ecossistema da mobilidade será uma questão-chave para o seu sucesso, cabendo às empresas envolvidas e aos próprios Estados assegurarem a fiabilidade de todo o sistema. Num mundo em mudança, o futuro da mobilidade tenderá a tornar-se mais complexo, com muitas questões ainda sem resposta e muitas incógnitas. Muitos construtores de automóveis e empresas de tecnologia estão a impulsionar a utilização partilhada de veículos, mas os utilizadores ainda têm receio.
Sem a garantia de que estes veículos autónomos irão funcionar de um modo adequado e em total segurança, a sua utilização massificada estará comprometida. No entanto, muitos dos cyber risks que são suscitados pelo futuro da mobilidade têm surgido noutros sectores de actividade, tais como o bancário, o segurador ou da aviação. Nesse sentido, os principais agentes do sector da mobilidade devem retirar as devidas aprendizagens para que o novo ecossistema esteja protegido de potenciais ataques de hackers e outros intrusos. Deverá ser assegurada a protecção das infra-estruturas digitais críticas, designadamente as que asseguram a conectividade entre os veículos e as infra-estruturas, permitindo que os veículos autónomos sejam percepcionados por todos utilizadores como absolutamente seguros e confiáveis.

O futuro ao virar da curva
O futuro da mobilidade está, na nossa perspectiva, ao virar da próxima curva. As empresas portuguesas têm um enorme potencial para aproveitar a revolução que se perspectiva na área da mobilidade. Do novo ecossistema farão parte novos sectores e empresas e as preferências dos utilizadores determinarão as novas tendências, daí que o potencial seja enorme. O volume de informação que será gerado sobre os utilizadores (por exemplo, big data) abrirá novas oportunidades de negócio dentro de portas, mas também noutras cidades ou territórios onde possam ser replicadas.
A evolução será naturalmente mais lenta nas zonas suburbanas e rurais, mas já começam a ser bem evidentes os sinais de mudança nos grandes centros urbanos, tais como Londres, Helsínquia, São Francisco, ou mesmo em algumas cidades portuguesas, como Cascais e Lisboa.
No novo ecossistema da mobilidade, as oportunidades para criar valor irão seguramente exigir que os stakeholders reequacionem os seus modelos de negócio. Dependendo do papel que pretendem ter no ecossistema, os líderes das organizações terão de aferir se as actuais competências permitem apresentar ofertas de valor aos seus clientes ou se, pelo contrário, terão de se reinventar para serem competitivos e aportarem valor!

Artigo publicado na revista Risco n.º 6 de Outono de 2017.

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