Acções vs Obrigações

É comum ouvir-se falar de acções e obrigações, mas sabe mesmo o que as une e o que as separa? Conheça o essencial de duas coisas completamente diferentes, com uma natureza comum: ambas são fundos de investimento.

Os fundos de investimento, nomeadamente as acções e as obrigações, não são para todos. Mais do a questão de ter ou não dinheiro para investir, é fundamental que o investidor seja permeável ao risco, pelo que nem todos os perfis se enquadram neste tipo de investimento. Um investidor conservador, ou mesmo moderado, costuma optar por soluções de capital garantido, como é o caso dos depósitos a prazo, em que o valor investido não é colocado em causa e o retorno surge na forma de juros. Neste tipo de investimento, os prazos são menores e os ganhos também, mas o grau de risco é mínimo.

Acções e obrigações são todo um outro campeonato. Apostar neste tipo de fundos de investimento está associado a perfis dinâmicos ou arrojados, em que o investidor procura uma remuneração maior e, em contrapartida, está disposto a assumir o risco de perder o seu capital inicial, parcial ou totalmente, e, em alguns casos, mais ainda.

ACÇÕES

Para investir em acções é necessário, antes de mais, compreender o que elas são. As acções são, simplesmente, títulos que representam uma parte do capital social de uma empresa.

E para que servem? Muitas vezes as empresas utilizam as acções como forma de obter financiamento de terceiros de uma forma alternativa ao crédito bancário. Na prática, a empresa, que é a entidade emitente, divide o capital social em diversas parcelas e vende-as. Cada uma é adquirida sob a forma de acções.

O mercado de acções é regulado pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), enquanto a Bolsa de Lisboa, que é gerida pela Euronext Lisbon, é o local onde estes títulos são negociados.

Não é possível comprar acções na Bolsa de Valores de uma forma directa. Para optar por este fundo de investimento, terá sempre de recorrer a um intermediário financeiro, que poderá ser um banco, ou uma corretora certificada pela CMVM para o efeito.

COMO FUNCIONA

Embora pareça complicado, o mercado de acções é, na realidade, muito simples. O que complica é a multiplicidade de factores que podem fazer alterar o valor das acções, fazendo com que ganhe ou perca dinheiro.

Quando uma empresa abre o capital, ou seja, coloca acções na Bolsa de Valores para serem transaccionadas, qualquer pessoa as pode comprar. E, na ausência de outros condicionamentos, o que funciona aqui é essencialmente o princípio da oferta e da procura. Quanto mais acções estiverem disponíveis para serem transaccionadas, menor o preço. À medida que as acções começam a escassear, o preço no mercado aumenta.

Face ao crescimento do preço, os accionistas podem querer vender os seus títulos com o objectivo de reaver o capital investido, acrescido da diferença entre o valor de compra e o de venda.

No entanto, o valor das acções pode baixar por factores externos ao princípio da oferta e da procura. Problemas na empresa ou no sector de actividade onde ela se insere, crashes das bolsas, conjuntura internacional, vendas, fusões e aquisições, ou mesmo notícias envolvendo gestores de empresas, podem fazer com que os accionistas, receando perder o capital investido, comecem a vender as suas acções, pressionando assim o preço para baixo. O pior que pode acontecer é ser-se obrigado a vender acções por um preço inferior ao preço de compra. Se a diferença for superior a 100%, o capital inicial é totalmente perdido e entramos em terreno negativo.

COMO COMPRAR?

Como referido anteriormente, qualquer pessoa pode comprar acções, mas tem sempre de recorrer a um intermediário financeiro. Voltando aos conceitos básicos, lembre-se que o mercado bolsista é regulado pela CMVM e só um intermediário financeiro autorizado por esta entidade pode colocar uma oferta.

Existem dois intermediários possíveis: um banco ou uma corretora. Na primeira opção, a conta-títulos com as acções fica ligada à conta à ordem do proposto accionista, mas com um número diferente. Caso não seja cliente do banco, terá de abrir uma conta.

Se, pelo contrário, optar por uma corretora, terá de abrir uma conta-títulos onde deposita o dinheiro que pretende investir, funcionando como uma conta à ordem.

Depois de aberta a sua conta-títulos, é chegado o momento de dar ordens de compra ao seu intermediário financeiro. Para isso, poderá utilizar a plataforma online do seu banco ou corretora. Lá encontrará opções de investimentos e índices bolsistas de referência. As principais referências são:

>> PSI-20: o Portuguese Stock Index é o principal índice de referência do mercado de capitais português, aglomerando as acções das 20 maiores empresas portuguesas;

>> IBEX 35: o Iberia Index reúne as 35 maiores acções espanholas;

>> CAC 40: o Cotation Assistée en Continu é o índice das melhores empresas francesas;

>> DOW JONES INDUSTRIAL AVERAGE: também conhecido por DJIA, INDP, Dow 30 ou Dow Jones, apresenta a cotação das acções das 30 principais empresas dos EUA.

As cotações da bolsa são igualmente divulgadas nos sites de informação e jornais económicos, que deve consultar regularmente para ter em atenção a data de pagamento de dividendos, os anúncios de aumento de capital, as ofertas públicas de venda e aquisição e os relatórios e contas anuais das empresas, entre outras informações de interesse, enquanto accionista.

O site da CMVM também presta informação relevante sobre a actividade das empresas cotadas em Bolsa, pelo que deverá consultá-lo para se inteirar da situação das firmas de que é accionista.

Caso não faça a mínima ideia de quais os melhores títulos para investir, pode sempre recorrer a um fundo de investimento de acções, mas estes fundos são geridos por profissionais, pelo que implicam o pagamento de uma percentagem dos capitais geridos.

Quanto ao tempo ao longo do qual deve manter as suas acções em carteira, a resposta é só uma: o que for necessário. Muitos investidores experientes compram e vendem acções no mesmo dia, numa estratégia chamada de “day trading”. No entanto, também pode optar por uma estratégia de “buy and hold”, que consiste em esperar meses ou mesmo anos para vender, revendo regularmente os valores e procurando maximizar os investimentos.

OBRIGAÇÕES

Agora que já sabe como funciona o mercado de acções, vamos falar de algo substancialmente diferente que pode, de igual forma, dar-lhe bom dinheiro a ganhar: as obrigações.

Se as acções são títulos que representam o capital social de empresas, as obrigações são títulos que representam capital em dívida. Por definição, as obrigações são valores mobiliários representativos da dívida de uma empresa, de uma instituição ou do Estado. Assim, quando alguém investe em obrigações (tornando-se um obrigacionista), está na realidade a conceder um empréstimo a uma entidade e torna-se dela credor. No final do prazo (maturidade) do empréstimo concedido, o obrigacionista tem direito ao reembolso do capital investido, acrescido de prémios ou juros fixados na data de emissão dos títulos.

As obrigações têm algumas características próprias que devem ser tidas em conta pelo obrigacionista no momento da emissão. A primeira característica é o valor nominal, que é o valor expresso no título e que não corresponde necessariamente ao valor pago por ele. É um valor importante, porque serve de referência ao preço de emissão, que é o valor pago pelo obrigacionista no momento em que o título é emitido. Se este preço de emissão for superior ao valor nominal, a diferença irá corresponder a um prémio de emissão; se for inferior, haverá um desconto da emissão.

Outra característica importante das obrigações é a taxa de juro do cupão. O pagamento de juros neste fundo de investimento é feito numa base periódica e tem por base uma taxa fixa ou variável, definida no momento da emissão do título. Quando a taxa é variável, a fórmula de cálculo tem de ser previamente explicada ao emissor. Relativamente à periodicidade dos pagamentos, poderá ser mensal, trimestral, semestral ou anual.

A maturidade é também definida aquando da emissão da obrigação, e corresponde à data em que o investimento expira. Nessa data é feito o último reembolso de capital.

TIPOS DE OBRIGAÇÕES

Por tratar-se de títulos de dívida, as obrigações podem ser emitidas por empresas ou pelo próprio Estado. No caso deste último, os subscritores têm à sua escolha dois tipos: as Obrigações do Tesouro (OT) e os Bilhetes do Tesouro (BT). As OT são o instrumento principal de financiamento do Estado português, e a sua emissão concretiza-se através de operações sindicadas, leilões ou operações de subscrição limitada, segundo a Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP). Em termos gerais, estas OT têm taxas de juro fixas e maturidades entre os dois e os 50 anos e são amortizáveis no seu vencimento. A duração é o que distingue estas obrigações dos Bilhetes do Tesouro, que são títulos de curta duração, normalmente de até um ano, com um valor unitário de um euro.

No caso das empresas, sejam elas públicas ou privadas, as obrigações são chamadas de Corporate Bonds, e muitas vezes são olhadas com maior desconfiança dos que as estatais, porque a única garantia de reembolso é a própria capacidade da empresa de respeitar os seus compromissos. Para se protegerem desta insegurança transmitida ao investidor, as empresas e instituições costumam requerer uma notação de risco.

As obrigações podem ser ainda de dívida subordinada ou sénior. As subordinadas incluem uma cláusula de subordinação que dita que, em caso de falência ou liquidação da entidade emitente, estas obrigações só serão reembolsadas depois das de dívida não subordinada ou sénior. Apesar das obrigações subordinadas estarem, assim, em desvantagem quanto às de dívida sénior, o seu reembolso continua a ser prioritário face aos accionistas da empresa. Esta é uma vantagem das obrigações face às acções.

Quanto a riscos inerentes, já vimos que um deles, nomeadamente das Corporate Bonds, é a falência ou liquidação da empresa emitente, razão pela qual os investidores tendem a preferir as obrigações do Estado. No entanto, há outros riscos associados que podem afectar qualquer título, público ou privado, corporate ou estatal. São eles os riscos de liquidez, de mercado, de remuneração, de taxa de juro e de inflação. Em suma, a volatilidade dos mercados desempenha um papel importante no grau de risco que as obrigações implicam.

REMUNERAÇÕES E CUSTOS

Tal como em qualquer fundo de investimento, as obrigações têm montantes mínimos e máximos de remuneração, de acordo com as características do título. Dependem essencialmente do valor do investimento, da taxa de juro e da maturidade. Dando como exemplo um investimento de 10 mil euros a cinco anos com uma taxa anual nominal bruta de 4%, o investidor terá uma remuneração total de 1.440 euros na maturidade do fundo de investimento. Isto porque o juro semestral será de 200 euros, correspondente a 400 euros por ano. Retirando o imposto, a remuneração líquida por semestre cifra-se nos 144 euros.

Ao subscrever obrigações o investidor deve também ter em conta os custos associados, as comissões e os impostos que farão “encolher” a remuneração. Dado que, tal como nas acções, terá de recorrer a um intermediário, os custos poderão ser variáveis, nomeadamente nas comissões de corretagem. Também a escolha por canais online em detrimento de balcões físicos poderá reduzir custos.

Em matéria de impostos, as obrigações são tributadas em sede de IRS, imposto de selo e imposto sobre mais- -valias. O imposto é retido na fonte, pelo que o valor recebido sob a forma de juros já é líquido.

Depois de emitidas, as obrigações podem ser vendidas antes do prazo de maturidade, mas terá de ter em atenção o risco de a remuneração ser inferior ao valor de investimento – ou seja, pode não valer a pena antecipar a venda. Tudo depende do preço a que essas obrigações se encontram na Bolsa de Lisboa. Se a cotação for inferior ao valor que pagou, vai estar a perder dinheiro.

As obrigações não transaccionadas na Bolsa também podem ser vendidas antes do prazo de maturidade mas, segundo explica a CMVM no seu Guia das Obrigações, «cabe ao intermediário financeiro encontrar um investidor interessado em comprar. No entanto, o preço de venda pode ser inferior ao esperado, ou pode não haver procura no momento em que o investidor as pretende alienar».

in Revista Risco nº 11 (inverno 2018)

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